domingo, 30 de maio de 2010

AS RELIGIÕES HOJE

AS RELIGIÕES HOJE

José Comblin


Em 1996 um escritor norte-americano, de prestígio Samuel Huntington publicou um livro com o título de The Clash of Civilizations and the Remaking of World Order (O choque das civilizações e a reconfiguração da ordem mundial, New York, Simon and Schuster). O autor queria se opor radicalmente à tese emitida há alguns anos, pouco depois da queda da URSS, por Francis Fukuyama num livro famoso no qual protagonizava “o fim da história”. Huntington defendia que longe de terminar, a história entrava numa nova fase. Era verdade que havia terminado a fase do conflito secular entre capitalismo e socialismo, mas à diante os conflitos mundiais, que originariam uma nova fase histórica, seriam conflitos entre culturas e não entre modelos econômicos.
Huntington enunciava 8 culturas, e, para ele, o conflito maior da nova época histórica seria um conflito entre o Ocidente com sua cultura e o mundo islâmico com sua cultura. Estas duas culturas seriam incom¬pa-tí¬veis, as duas queriam conquistar o mundo e, portanto, o conflito seria inevitável, e haveria de gerar inumeráveis guerras durante séculos: a história continua! Não chegamos ao seu final. E quem diz cultura, diz religião. Por isso, a nova época histórica seria uma época de guerras de religião.
É notório que Huntington sempre esteve muito próximo dos grupos que orientam a política exterior dos Estados Unidos. Em todo caso seu livro sobre “O choque das civilizações” foi muito bem acolhido e alcançou uma fama imprevista depois de 11 de setembro de 2001. Os fatos pareciam confirmar sua previsão. De fato muitos, nos Estados Unidos, inclusive políticos, assimilaram a doutrina de Huntington, que entrou no subconsciente das massas e das elites políticas.
Depois do dia 11 de setembro, o imperialismo norte-americano se mostrou cada vez mais arrogante. Tirou as suas máscaras. Nasceu uma nova doutrina militar, uma nova geopolítica: além disto os Estados Unidos podem prescindir do resto do mundo e organizar o planeta como quiser. A experiência do triunfo no Afegnistão mostra que os Estados Unidos podem impor sua concepção de mundo e os interesses que a invocam. Praticam abertamente o protecionismo e impõem o livre comércio aos outros países. Apóiam a política suicida de Sharon em Israel contra os palestinos. Querem mostrar pelo terror que dominam o Oriente Médio.
Durante todo o ano de 2002 os Estados Unidos prepararam a guerra para derrubar o regime de Sadam Hussein no Iraque. Agora, querem estender seu império na Ásia Central, grande reserva de petróleo. Espalham na Rússia novas repúblicas da Ásia central. Estas são também muçulmanas, o que faz prever novos conflitos religiosos no futuro.
Querendo ou não queremdo os Estados Unidos representam a face do cristianismo no mundo, e as Igrejas não manifestam com muita evidência que rejeitam a política mundial dos Estados Unidos, não se opõem reais argumentos à convicção generalizada dos povos de que cristianismo é igual a Estados Unidos.
Uma vez introduzida a idéia da incompatibilidade entre culturas, aparece uma atitude de desconfiança instintiva para com as outras culturas, e, por conse¬guin¬te, para com suas religiões. Na visão de Huntington a única saída para a humanidade é a cultura ocidental, científica e racional. Esta é a continuação da concepção da modernidade.
Sem dúvida os fatos não justificam necessariamente essa visão conflitiva de Huntington e da política dos Estados Unidos.
Qual é o estado das relações entre as grandes religiões na atualidade?
As religiões são diferentes, mas não necessariamente conflitantes, podem se compenetrar, influir umas nas outras e praticar um diálogo fecundo, no plano da ação e convivência, provavelmente mais que no nível de doutrinas.

1. Comecemos pelo Islã que atualmente é a religião que mais chama a atenção. Mas faz mais de um século que os que lêem os jornais sabem que o Oriente Médio é o lugar de uma guerra quase sem interrupção entre cristãos e muçulmanos.
Em primeiro lugar, é indispensável que fique claro que o movimento Al Quaeda e Bin Laden não são representativos do Islã. São pequenos grupos radicais fun¬da¬mentalistas, não são mais representantes do Islã que o que o movimento de Lefrèvre pode ser representante do catolicismo. Al Qaeda nasceu no Islã, como Lefrèvre nasceu no catolicismo, chegando inclusive a ser arce¬bis¬po. Mas os dois são extremistas atípicos.
Maomé criou uma religião muito simples ao alcance das grandes massas. Não há teologia, não há sacramentos, não há organização, não há clero. O Islã é uma religião popular, é uma imensa comunidade de povos que aceitam a mesma religião e a vivem. Apesar da ausência do clero, há uma grande homogeneidade e solidariedade que faz com que todos os muçulmanos no mundo inteiro sintam-se solidários e unidos.
Desde o início, Maomé compreendeu que o Islã estava destinado a ser a religião de toda a humanidade: toda a humanidade devia abandonar o culto aos ídolos e reconhecer o Deus verdadeiro. Aqui surge a famosa questão da “guerra santa” (al-gihad). Em vários lugares do Alcorão, Maomé se refere à guerra santa e proclama sua necessidade.
No século XX veio a desintegração dos Impérios europeus e a independência formal de um grande número de Estados que distribuíram a população muçulmana segundo critérios tipicamente ocidentais. O Islã ficou dividido em dezenas de Estados e nunca em nenhum momento foi possível reconstituir uma unidade muçul¬mana. Daí uma imensa frustração dos povos, que se sentem traídos por suas elites.
Nasceram Estados segundo o modelo ocidental, que trataram de ocidentalizar a sociedade muçulmana. Trouxeram os princípios ocidentais: a laicização do Estado que é um horror para o Islã, o capitalismo (de que se dizia um sábio que o “o Ocidente é a organização planetária da usura”), as instituições políticas, o modelo de empresa, o direito...
Os Estados e as empresas do Ocidente fizeram alianças, como sempre num regime colonial, com os elementos mais corruptos da sociedade, com as oli¬gar¬quias mais escandalosas. O melhor exemplo da tal política é o atual governo da Arábia Saudita, onde uma insignificante minoria de oligarcas corruptos, imen-sa¬mente ricos, graças ao petróleo, tratam o país e seus habitantes como se fossem sua propriedade. Este gover¬no é sustentado pelos Estados Unidos que desta forma acumula sobre si um imenso ódio não só dos cidadãos sauditas, mas de todo o Oriente Médio. Outro exemplo foi o Xá da Pérsia, instalado e mantido pelos Estados Unidos, exemplo vivo do escândalo por sua imensa exploração das riquezas do país. Para os ocidentais só importa o petróleo, e os povos são entregues a bandidos convertidos em reis e presidentes de pseudo-repúblicas.
Contra toda essa corrupção, em virtude de um imenso sentimento de frustração, movidos por uma ira implacável, nasceram os movimentos que constituem o que se chama hoje em dia “Islamismo” (e não confundir com “Islã”). O islamismo nasceu no Egito em 1928 com os chamados “Irmãos Muçulmanos”.
Os movimentos islamitas querem a independência real em relação ao Ocidente, a união entre religião e política porque a política deve implantar e manter a lei do Alcorão, a “sharia”, ainda que existam diferentes interpretações dela; a luta conta a corrupção introduzida pelo sistema capitalista e o retorno à tradição da soli¬dariedade muçulmana. Condenam rigorosamente uma organização da sociedade sem religião como a dos estados laicizados do Ocidente. Com os judeus e os cristãos, os islamitas são muito mais rigorosos que os muçulmanos tradicionais.
As Igrejas cristãs são vistas como poderes religiosos que legitimam o sistema ocidental, cúmplices dos horrores praticados pelos ocidentais. Para poder dialogar com os muçulmanos há que se distanciar do sistema cultural e político do Ocidente. Haveria que mostrar que os cristãos todavia possuem algo do Evangelho e não estão totalmente integrados no sistema capitalista, como sugerem as aparências.
Entre o Islã e o cristianismo há uma tradição de guerras que já tem XIV séculos. Houve períodos de convivência pacífica e colaboração, por exemplo na Espanha ou na Síria, Líbano, Egito...Sem dúvida a guerra é a nota predominante. Atualmente há guerras entre cristãos e muçulmanos em Chechênia, Sudão, Filipinas e no Iraque. Há paz em perigo e ameaças de guerra na Bósnia, Albânia, Kosovo, Macedônia, Nigéria. Há perse¬guição violenta aos cristãos na Indonésia, Nigéria, Arábia Saudita. O diálogo não é fácil.

2. O segundo grupo religioso mais numeroso depois do Islã é o hinduísmo. Claro que a importância numérica advém da demografia da Índia. Há poucos hindus fora da Índia e sua expansão no mundo é mais fraca que a de outras religiões como o Islã e o Budismo.
O hinduísmo não existe como sistema e nenhum hindu dirá que é hindu. Esse nome lhes foi dado pelos muçulmanos e os ingleses. Na realidade o chamado hinduismo não é um sistema religioso definido. Não tem doutrina, nem instituições, nem hierarquias, nem representantes oficiais. Pelo menos desde há mil anos ficou refugiado na vida interior, posto que a vida pública foi assumida primeiro pelos muçulmanos e depois pelos ingleses.
O hinduísmo é a busca de salvação interior pelo domínio de si mesmo. É uma prática do ser humano sobre si mesmo. Por isso os hindus crêem que são compatíveis com todas as religiões e podem assimilá-las.
O hinduísmo nunca esteve interessado pelo mundo exterior ou a sociedade como organização. Todas as instituições da Índia são britânicas. Só nos últimos anos houve um despertar de grupos intelectuais indignados pela direção total da política por critérios alheios à Índia. Formaram o Partido do Povo, que desde 1996 até nossos dias governa a Índia, após ter derrubado o Partido do Congresso foi que proclamou a independência.
O Partido do Povo tende a se distanciar da globa¬li¬za¬ção e constitui um pólo de resistência à escala mundial. Quer uma economia concentrada no próprio país que produza para o mercado interno.
O Partido do Povo tem por projeto a indianização da Índia. Por isso multiplicam-se os conflitos com a minoria muçulmana que é de 120 milhões ou com a minoria cristã que é só de 2,5% da população (mais ou menos 25 milhões). Aumentaram os atos de perseguição contra o Islã ou contra as igrejas cristãs, considerados como elementos estrangeiros e de infiltração do Ocidente. Em 2002, a perseguição dos muçulmanos pela maioria hindu aumentou e a tensão entre o Paquistão e a Índia cresceu.

3. O Budismo. Buda separou-se radicalmente do hinduísmo, ainda que toda sua personalidade tenha sido impregnada por ele. Rejeitou o hinduísmo por considerá-lo corrompido por seus representantes, os Brahmanes. Mas, na realidade toda a essência do hinduísmo está na essência do budismo que se emancipou de seus aspectos mais discutíveis.
Não há ortodoxia budista. Há várias escolas, várias orientações que se referem a Buda, e todas têm um fundo comum.
O budismo não é propriamente uma religião no sentido de que Deus não ocupa nenhum lugar no budismo. Buda sempre evitou a questão de um Deus como algo inútil que só serve para separar o fiel de seu cami¬nho exclusivo. Era como uma questão puramente teórica sem importância para a prática. O budismo é um cami¬nho de salvação.
Os budistas podem ser mais ou menos 200 milhões. São quase uma maioria no Japão, Vietnã, Tailândia e Sri-Lanka, Birmânia, Camboja e Nepal. O budismo era a cultura do Tibet antes da invasão da China. Os budistas são numerosos na China, Coréia e Taiwan, mas não se misturam com outras religiões chinesas e de todos os modos foram perseguidos pelo comunismo. São perseguidos também em Myanmar (Birmânia), no Camboja foram dizimados.
No plano social, o budismo pratica a compaixão com todos os sofrimentos, com a pobreza dos pobres. É profundamente tolerante e não violento. Sem dúvida tende a lutar contra a dor e o mal no coração do ser humano que na sociedade. Sua ação se dirige mais para o interior da pessoa do que para a sociedade. Enquanto que o cristianismo ocidental é superficial quando busca a libertação por meios políticos, como se o mal tivesse suas raízes na sociedade, mais que no próprio ser humano. Sem dúvida no contato com o Ocidente, o budismo abre-se pouco a pouco para o social.
Atualmente o budismo está em expansão no mundo ocidental, provavelmente por se sentir atraído pela interioridade do budismo, numa sociedade atual vazia de interioridade, e também por ser o budismo uma religião quase sem instituições, sendo assim exerce uma fasci¬na¬ção sobre muitos cristãos das Igrejas tradicionais, decepcionados por sua religião formal e exterior.

4. O Cristianismo está em expansão, mas não nas Igrejas institucionais. Estas continuam mostrando altos números de adeptos porque consideram como adeptos todos os que um dia foram batizados, ainda que tenham se convertido depois a outra religião ou tenham perdido toda relação com sua Igreja.
O cristianismo que está em plena expansão é o do tipo pentecostal. Em 100 anos os pentecostais fizeram centenas de milhões de conversões. Muitas Igrejas tradicionais tratam de se salvar adotando o modo de ser dos pentecostais. Mesmo na Igreja Católica os movimen¬tos carismáticos possuem um grande crescimento sobre¬tudo na América e África. Milhares de Igrejas diferentes proliferam, e a cada ano aumenta seu número. É o novo cristianismo para as massas.
A Igreja Católica trata de manter o pentecostalismo dentro da ortodoxia, mas os carismáticos continuam conquistando dioceses, e colocam sacerdotes e até bispos ao seu serviço. São o elemento mais dinâmico e conquistador do cristianismo.
Os pentecostais encontram a salvação nas experiên¬cias espirituais, que são, mais emocionais e são pouco sensíveis aos problemas humanos, sociais e políticos. Sem dúvida, no pólo oposto ao dos carismáticos estão os movimentos fundamentalistas cujo poder se faz cada vez mais evidente dentro da instituição. Opus Dei, Legioná¬rios de Cristo, Sodalitium e muitos outros movimentos menos importantes vão conquistando posições. Em grande parte controlam a Cúria romana e na América latina ocupam posições sempre mais importantes.
São líderes no México e a partir daí estão dispostos a conquistar a Igreja católica como instituição. Os funda¬mentalistas fecham as portas ao diálogo. Crêem que podem conquistar o poder na sociedade: não necessitam convencer ao povo porque conquistam as elites e a partir daí o poder querem reconstruir uma cristandade. O Brasil é o único país talvez relativamente livre do domínio dos movimentos fundamentalistas.
Os fundamentalistas são eminentemente políticos: querem o poder político. Mas são insensíveis aos valores da democracia e não crêem que existam os problemas sociais. Seu mundo é o poder, o que explica a impor¬tân¬cia que encontram em certos meios eclesiásticos.

5. As seitas e novos movimentos religiosos. No mundo ocidental a secularização da sociedade e sua tolerância absoluta em matéria religiosa formaram um ambiente favorável à expansão de novos movimentos religiosos. Não tendo quase nenhuma repressão social ou política, a porta está aberta para as piores loucuras religiosas. Praticam o proselitismo e sempre conseguem conquistar uma clientela. Entre os que mais cresceram estão os Testemunhas de Jeová, os Mórmons, a Igreja da Unificação ou a seita de Moon, a Nova Acrópole, a Associação pela consciência de Krishna, a Igreja da Cienciologia, a Sofrologia, a Fé Mundial Ba’hai, os Espiritismos, a Teosofia, a Antroposofia, os Rosa-cruzes, a Sociedade Internacional gnóstica. São milhares e milhares. Em geral reavivam elementos do cristianismo ou das religiões orientais construindo uma nova com¬bi¬nação.
Há seitas milenaristas, seitas mais gnósticas, e seitas de tipo oriental que se dedicam à salvação pela interiorização e o controle de si mesmo. Para os não iniciados uma boa introdução é o romance de Umberto Eco, o “O pêndulo de Foucault”.

O mundo ocidental está também cheio de movimen¬tos religiosos não articulados em forma de seitas, mas que ensinam formas de religião de tipo panteísta os quais a divindade se identifica com as energias da natureza. São movimentos do tipo New Age com contornos pouco definidos, mas com experiências sensíveis de identificação com o mundo exterior. O ser humano deixa de ser o centro do mundo: é só uma porção muito pequena desse universo e tem que se submeter ao movimento do conjunto.
Esta tendência de religião individualista ou panteísta combina muito bem com a indiferença à ação humana sobre a sociedade. Tende mais a fazer com que os seres humanos submetam-se a tudo o que acontece e não tenham motivações para atitudes de conflitivas. A conseqüência é que alimentam uma atitude de abstenção social. Para eles a sociedade perde sua importância: o ser humano vive no universo.

6. Há na América tentativas de ressurreição das antigas religiões indígenas e das antigas religiões africanas. Entre as africanas, alguma, como o can¬dom¬blé, se conservaram com grande pureza. Em geral as tradições africanas se fundiram com elementos do espiritismo ou de outras seitas. É difícil prever qual será o destino dessas religiões. O mais provável é que se transformem também em seitas, atraídas pelos modelos dominantes no Ocidente apesar de seu desejo de autenticidade.
Em geral, esses movimentos de renovação religiosa acompanham e querem legitimar movimentos de autonomia ou independência política. Isto é visível por exemplo, entre os Mapuches do Chile, entre os movi¬men¬tos Aymaras na Bolívia e Peru ou em movimentos indígenas do Equador. Sem dúvida estes movimentos para a autonomia estão crescendo apesar da grande resistência dos Estados Nacionais nascidos da chamada Indepen¬dên¬cia.
Sem dúvida, alguns podem duvidar que mesmos as religiões tradicionais possam realmente reviver como religiões. Elas oferecem muitos elementos de identidade para os povos indígenas ou os afro-americanos. Sem dúvida, mesmos movimentos de independência assimi¬laram tantos elementos do Ocidente que se secularizaram e conservaram a religião com o sistema de símbolos. É o caso por exemplo dos movimentos de independência que se dizem marxistas ou se inspiram no marxismo: o marxismo é o mais forte elemento de ocidentalização.


O encontro entre as religiões ainda não está muito adiantado. As tarefas que se anunciam são imensas. Há trabalho para muitas gerações, mas isto não quer dizer que não se deva começar a partir de agora. As guerras religiosas sempre foram as mais terríveis. A ameaça sempre volta e por isso é preciso urgentemente iniciar um diálogo intenso em todos os setores da vida social.
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