domingo, 30 de maio de 2010

FUNDAMENTOS DO ENSINO RELIGIOSO - Noeli Schnorrenberger

ESCOLA SUPERIOR DE TEOLOGIA
CURSO DE EXTENSÃO EM ENSINO RELIGIOSO
SÃO LUIZ GONZAGA


FUNDAMENTOS DO ENSINO RELIGIOSO
Dra. LAUDE ERANDI BRANDENBURG

CHAVE DE LEITURA
Noeli Schnorrenberger

1.0. Fazer apanhado:

A nossa sociedade considerou a racionalidade e o resultado imediato do lucro como conceitos primordiais, portanto, as ciências, humanas e a espiritualidade ficaram, ou relegadas ao segundo plano, ou mesmo foram suprimidas. É o que aconteceu tanto com a religião, quanto com o Ensino Religioso. Alguns para não suprimi-la tornaram-na útil, fonte de negócio terreno ou com Deus pelas promessas.

Atualmente estes conceitos estão mudando. “A religião encontra uma certa respeitabilidade em decorrência dos questionamentos dirigidos à racionalidade moderna”. A sociologia, a antropologia, a psicologia da religião e a teologia ocupam-se do papel da religião na sociedade e sua importância para o ser humano. O Ensino Religioso aborda a dimensão religiosa do ser humano .A LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional) aponta para o respeito à diversidade religiosa brasileira. Daí a importância da abordagem do fenômeno Religioso.

Diversidade religiosa brasileira: antes de 1500 havia a vivência religiosa indígena. Os colonizadores trouxeram o cristianismo pela igreja católica. Imigrantes trouxeram confissões religiosas cristãs e não cristãs. Diversas confissões religiosas passaram a conviver e movimentos com características neo-pentecostais e orientais proliferam. É o pluralismo religioso.

“A religiosidade está em alta, a religião está em baixa”. Alguns povos não conhecem o termo religião e têm sua concepção religiosa impregnada no cotidiano. A religiosidade tem relação com a razão da existência do ser humano e das coisas. É a dimensão religiosa intrínseca no ser humano e no elemento religioso presente na organização cultural do povo. Manifestação psíquica e pessoal ou grupal da dimensão religiosa que pode ser expressa dentro ou fora de uma instituição religiosa.

Religião pode significar relegere - “realização escrupulosa das observâncias cultuais, no respeito e na piedade devidos aos poderes superiores”. Re-elegere - voltar a escolher. Re-ligare – criar laços. Tendência atual – re-ligação do sujeito consigo mesmo, com o mundo que o cerca e com o transcendente, com o que está fora dele. Está ligada a idéia de organização institucional.

Religião e religiosidade interagem, ou se misturam e/ou se contrariam.



2.1. Ponte entre sagrado e profano:

A abordagem da religião sob a ótica antropológica é a reconstrução da ponte entre o sagrado e o profano, o reencontro com o sagrado. Por longa data viveu-se a dicotomia entre essas duas grandezas. A modernidade, principalmente no ocidente, isolou o sagrado nos templos com a concordância da teologia cristã. Torna-se essencial a redescoberta da importância essencial que o sagrado tem em toda a existência humana.

A dimensão religiosa do ser humano é ratificada pela idéia do “homo religiosos”, o ser humano universal. Esse é visto como o único capaz de religar ou tentar religar as diversas dimensões que a realidade apresenta, principalmente aquelas que a razão não pode atingir. É a característica indagadora sobre a vida que reafirma essa dimensão. O sentido da vida passa a ter grande importância. As perguntas “Quem eu sou? De onde vim? Para onde vou?” impulsionam o agir consciente do ser humano. Esse passa a ser um ativo participante do processo cósmico.

O mito:

É a busca da explicação do sagrado, uma representação do pensamento sobre o divino através da linguagem do ser humano. É um relato fundador que marca a realidade das coisas. É a tentativa do ser humano em aproximar-se, simbolicamente, do sagrado.

O Rito:

O rito constitui-se como ação consonante à visão de mundo representada no pensamento. É o esforço humano de aproximação e abertura ao sagrado. Ele permite tornar sagradas as energias profanas, as realidades materiais, bem como estimula a emergência do sagrado no profano. O rito faz de cada pessoa ou sociedade o eixo ou centro do mundo. É capaz de superar o combate antagonista de todas as dualidades, tornando-as complementares. Os ritos falam do mundo da pessoa e para esse mundo. Representam uma espécie de participação. Supõe o acesso de todos ao sagrado.

Religião étnica:

Os comportamentos religiosos podem ter origem de vários fatores, entre eles a ligação entre religião e etnia. A religião pode ter relação com a identidade de um determinado grupo étnico.

Religião e cultura:
A cultura e a religião não podem ser vistas de forma dissociada. Por isso a participação deve ser compreendida no contexto da vivência da religião de grupos determinados. Cultura e religião são interligadas e interdependentes. Só o diálogo pode aproximar culturas e religiões.

2.3.1. Teorias do desenvolvimento religioso:

- Teoria da Conversão religiosa:
Período de inquietação, a crise em si, o período de paz e a expressão através do comportamento. Causa a reestruturação do campo cognitivo e emocional. Acentua-se na adolescência devido a definição da identidade.

- Teoria da Predisposição religiosa:
Significa que cada pessoa possui uma capacidade religiosa arraigada na sua natureza humana. “O fundamento do religioso é inapreensível para a razão, mas pode ser experimentado pelo sentimento. O ser humano é visto como alguém atingido de fora. O irracional é um elemento de toda religiosidade.” Encontram-se também os indicativos de herança biológica, ou seja, de predisposição genética do aspecto religioso.

Yung na sua teoria do inconsciente coletivo aponta para a idéia de que certos arquétipos estariam presentes na expressão religiosa das pessoas, independente de sua confissão religiosa. A religião é essencial para à vida e sua ausência é a causa de neuroses.

Para Freud a religião adquire um caráter de neurose que pode ser curada através do amadurecimento emocional. Intersecção entre princípio da realidade e princípio do prazer. Cultivar e libertar-se do sentimento de culpa.

- Teorias interpessoais: acenam para a existência de uma certa predisposição religiosa no ser humano. O ser humano teria uma vocação para a inter-relação com o meio que o cerca e com o transcendente.

- As teorias cognitivas relacionam o desenvolvimento religioso com as atividades mentais e estruturais.

- A teoria da socialização religiosa atribui “a religiosidade a processos sociais de aprendizagem.” Coloca em questão o que ela significa para o ser humano (sistema de valores da sociedade).

- Teoria do desenvolvimento religioso por imitação: na relação de religião e ambiente há a aprendizagem por modelos (Cristo como modelo de vida).

2.3.2. Experiência religiosa:

É uma forma de contato com uma realidade. Um encontro vivido de uma pessoa que é confrontada pelo outro, percebido como tu. Diz respeito a vida humana, da pessoa como um todo. É uma vivência feita pessoalmente. É um modo de conhecimento, um fazer consciente. É pergunta pela vida e pelo sentido da existência. É compromisso do eu com a vida através de perguntas contínuas. Acolher construtivamente a dúvida é fundamental no tratamento da questão religiosa.

A oração, a adoração, a busca de orientação no livro sagrado e a fé são as formas mais expressivas de experiência religiosa.



2.3.3. Distinção entre religião saudável e religião doentia:

A crença religiosa fortalece a saúde mental quando:
1. constrói ponte entre as pessoas;
2. fortalece o senso de confiança e de relação com o universo;
3. estimula liberdade interna e responsabilidade pessoal;
4. move o senso de culpa para perdão, fornece orientações éticas significativas e leva a pessoa a auto-aceitação a partir da aceitação de Deus;
5. aumenta a alegria pela vida;
6. lida de forma construtiva com sexo e agressividade;
7. encoraja a aceitação da realidade;
8. enfatiza o amor e o crescimento;
9. dá aos seus adeptos um “quadro de orientação” (valores, sentido de vida) e objeto de devoção adequado para a trabalhar de forma construtiva com ansiedades existenciais;
10. encoraja a pessoa a relacionar-se com seus significados inconscientes através de símbolos vivos;
11. esforça-se para mudar comportamentos neuróticos da sociedade;
12. fortalece a auto-estima.

A religiosidade saudável cura a personalidade enferma; a religiosidade doentia torna enferma a personalidade; a personalidade enferma torna a religiosidade doentia; a personalidade sã cura a religiosidade doentia.

Posicionamento:

A humanização do ser humano passa necessariamente pela educação religiosa, considerando que do cultivo de uma espiritualidade saudável depende o equilíbrio de sua saúde mental, física e espiritual. Dela também depende a integração harmoniosa com os semelhantes pelo cultivo dos valores inerentes à espiritualidade e que levam a harmonia com o Outro. É imprescindível para a compreensão do seu papel de Cuidado essencial num mundo que manifesta os resquícios da exploração e destruição.
A educação integral pressupõe a re-ligação do sujeito consigo mesmo, com o Outro, com o mundo que o cerca e com o transcendente.