domingo, 30 de maio de 2010

Valores nascem com as Religiões

VALORES NASCEM COM AS RELIGIÕES
“Definitivamente, isto é uma religião: a descoberta de que a existência humana está fundada em Deus, habitada por ele, e que por isso se sente salva e pode ser vivida em esperança, gerando um modo específico de vida, de presença e colaboração com os demais no mundo de todos.” André Torres Queiruda
A experiência vivida pelas pessoas nas religiões proporciona um sentido de “ser no mundo”, construindo uma série de valores essenciais para a vida. A dimensão religiosa e transcendente produz relações éticas que possibilitam a convivência humana e garantem a sua sobrevivência.
As religiões e seus símbolos sagrados pertencem ao patrimônio cultural da humanidade. Precisamos acessar esta sabedoria religiosa para nos tornarmos mais capazes de pautar a vida por valores éticos, essenciais a qualquer sociedade. As religiões fazem parte da cultura. Elas inspiram as artes, a política, o direito, os costumes. Porém a experiência da fé e das religiões não pode ser comunicada apenas pelo estudo racional Seria, nas palavras de Marcelo Barros, “como explicar a quem nunca viu uma manga, o sabor próprio e maravilhoso desta fruta”. Podemos sim, estudar a forma das diversas religiões considerar a vida como sagrada e assim contribuir para o respeito a todos os seres vivos.
A religiosidade, em suas mais variadas expressões, se envolve com situações de vida e de morte. Segundo o teólogo Jung Mo Sung, ela é uma linguagem de esperança radical: a esperança de vencer a própria morte. Somente as religiões têm a capacidade de dar um sentido à morte, porque para a morte ter um sentido é preciso haver algo para além dela. E falar da vida para além da morte é falar de religião. Sem ela, a morte é o fim de tudo.
A religião, a fé, não pode ser reduzida a uma crença em formulações doutrinárias, nem a uma dimensão separada da vida. A fé é uma orientação da pessoa, dando propósito e direção às suas buscas e esperanças. Ela é sempre relacional, pois sempre existe um “outro” em nossa experiência de fé, a quem eu digo “eu confio, eu me comprometo, eu prometo fidelidade”. Neste sentido, Mahatma Gandhi propõe a fidelidade e o compromisso com os pobres como caminho para Deus. Dizia: “lembre-se das pessoas mais pobres que você conhece, dos seres que você já viu mais abandonadas. Pergunte se o ato que você planeja ou o seu modo de viver é de algum modo proveitoso para essas pessoas. Se for, através destes atos, você encontrará Deus”.
Como seres humanos, somos chamados a nos relacionar com os outros e, neste relacionamento, a descobrir o verdadeiro sentido da vida. Abrir-se ao outro é transcender os limites do meu mundo e atingir a essência humana que se encontra nas relações. A consciência, por exemplo, nasce nesta relação, pois ao nos relacionarmos passamos a nos sentir responsáveis também pela vida dos outros.
“Quando o outro entra em cena, nasce a ética”, diz o escritor italiano Umberto Eco. Mas que seria este outro? Sobretudo, o outro é aquele mais próximo que, embora diferente da gente, merece nosso respeito. Hoje, afirma o monge Marcelo Barros: “o outro é, cada vez mais, alguém de outra cultura, de outras convicções e outra visão de mundo que nos desafia a ir além de nós mesmos. Mas o outro é, principalmente, toda pessoa e grupo que ainda precisa de nosso aval para ter reconhecido o direito de ser ele mesmo”.
As religiões ajudam a construir nossos valores, na medida em que, através delas, nos defrontamos com nossa verdadeira condição humana, a condição de “criaturas”, com nossas potencialidades e limites. Religião e valores são temas importantes no processo de humanização das pessoas e na busca de superação dos graves problemas sociais e existenciais que encontramos.
Rui Antônio de Souza
Mundo Jovem/outubro de 2005.